ode à cozinha

Numa casa, todas as divisões básicas têm igual importância. Não há casas sem quartos nem sem casas de banho. Mas num lar, para mim, a divisão mais importante é a cozinha. Na Charneca, as pessoas que eu recebo entram pela cozinha, em vez de usarem a porta principal, e geralmente ficam por lá enquanto eu preparo a janta ou lhes sirvo um lanche. O sofá confortável socialmente correcto é preterido às cadeiras pouco ergonómicas que rodeiam a nossa grande mesa das refeições. Só a lareira acesa na sala no Inverno os impede de conviver com a parafernália de loiça que não condiz com nada, de tachos e panelas de vários estratos etários (nós dizemos que temos um museu naquele armário), a despensa sempre de porta aberta a revelar a montanha de víveres e os frascos vazios à espera de doce, o frigorífico com ímanes souvenires de viagens e tolices, a chaminé branca grande que resiste a um eficiente exaustor sobre o grande fogão metalizado (cheia de tralha, como, por exemplo, a pedra em forma de Nossa Senhora que a minha mãe achou no quintal), as sementes de coisas a secar no parapeito da janela com vista para a horta, o mata-moscas pendurado à porta, as pegas feitas pela avó Anunciação e a leva mais moderna da minha mãe, etc.. Não é bonito, mas é uma cozinha e eu adoro-a.
Aqui em Leuven, a minha kitchenete não dá para nada. Felizmente, temos uma cozinha comum espaçosa e toda equipada onde posso comandar almoços e jantares colectivos com os meus amigos quando os meus vizinhos belgas vão todos para casa aos fins-de-semana. Mas não me identifico com ela – é demasiado Ikea. Tentei atribuir algum caos limpo à kitchenete com uma tijela de fruta, flores na jarra e uma colecção de sacos de plástico, por exemplo. Mas o que me consola é a pequena despensa. Agora que estou quase a ir embora consegui compô-la. Ou seja, atafulhei-a com coisas que na verdade acabarão por ir para o lixo, uma gulodice para cada apetite, várias fontes de hidratos de carbono, uma caixa com ervas e especiarias… As coisas saudáveis estão no frigorífico.
Não é nenhum desmerecimento à tão batalhada emancipação feminina. A mulher que eu sou não tem mais liberdade se aumentarem o espaço da minha cozinha.😉 Além de por ela passar a ligação mais que requintada da sociedade com o que come, além de ser cenário dum hobby que me dá muito gozo, a cozinha é um pólo no cuidar de uma família e de uma casa – de um lar, portanto. E cuidar é o que se faz quando se ama. Parece-me muito simples.

One thought on “ode à cozinha

  1. E pronto! toda a gente tinha de saber como é a minha rica cozinha, com os seus extractos pré histórico, medieval, moderno, e pós moderno de panelas e frigifeiras!Até a minha pedra em forma de Nossa Senhora tinha de vir à baila!E os meus frascos vasios, que eu reutilizo para compotas!Não há direito!É a minha cozinha e pronto!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s