perspectiva

Há um momento primordial para estar no jardim: quando a inclinação do sol revela um jogo de insectos em contraluz e a cutícula das folhas brilha como aqueles pedacinhos de mar de ângulo certo nos dias quentes. Os pêlos da relva rígidos projectam sombras e sofrem transparências. Temos de fazer exercícios micrométricos de focagem para distinguir que aquele cintilar que vemos sobre ela são finíssimos filamentos de teias de aranha a reflectir o sol.
Os cães, ainda não apaziguados com o calor, dormem na sombra mais próxima. Às vezes, erguem os focinhos do sono e demoram-se hirtos e silenciosos a farejar invisibilidades no ar. Ensaiam um latir contra algo que eu nem me apercebo que lá está. Imagino os mapas mentais para nós imperscrutáveis que eles geram. Quão diferentes serão as matrizes de mundo construídas com sentidos que não temos? Para eles que alcançam tão longe, qual será a dimensão daquele jardim? Será que têm em conta o estranho posicionamento de estar entre o chão, quatro muros e o infinito?

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