estranheza

As fronteiras geopolíticas são artifícios. Na verdade, a única coisa que nos deverá impedir de palmilhar e ocupar um qualquer local do planeta são as nossas especificações técnicas e a respostaa factores como a disponibilidade de oxigénio, de alimento, a temperatura… Mas por algum motivo, ou todos, nos interior das delimitações nacionais e regionais acontece algo ao indíviduo que molda o seu carácter geográfico e, como tal, a sua adequação. Dentro do artifício da fronteira, consolidam-se igualmente bem delimitadas falsas naturezas, ou culturas, que nos condicionam. Cada pessoa é como é, em si mesmo, como os genes contém informação que nos impõe tanta coisa. Mas, tal como para lá da determinação genética existe a determinação epigénetica, o contexto em que crescemos acarreta uma espécie de imprinting que é o que no fundo determina que somos de uma dada nacionalidade ou pertencentes a uma dada região de um país ou do mundo. É por isso que um emigrante nunca encaixa perfeitamente à primeira na sociedade onde está a incluir-se. Às vezes nem passadas décadas. Podemos sentir-nos muito bem onde estamos. Os anfitriões podem ser sociáveis, civilizados, até mesmo falar a mesma língua que nós e serem parecidos com o nosso próprio povo. Mas às vezes falam mais baixo ou muito mais alto. Ou não se cumprimentam da mesma maneira. Ou a comida tem um cheiro diferente. E isso causa uma sensação de incompreensão que assegura um nível basal de “estrangeiridade”. Até podemos afirmar que Portugal só é bom para passar férias. E, uma vez lá, passar as férias todas a fazer comparações depreciativas com a nossa nova nação de residência. Mas reconhecemos os comentários que fazemos, uma vez fechada a porta de casa, sobre nos termos esquecido de estender a mão em vez da face para cumprimentar alguém, sobre como eles bebem muito mais e trabalham muito menos horas que nós, sobre a má qualidade do peixe e aquele orgulho ridículo deles numa gastronomia cujo clímax é uma espécie de jardineira a tresandar a paprika. Ou qualquer coisa assim!

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