crónica das recordações

Não me lembro bem de ser criança, mas creio que não era feliz. Fui à escola pela primeira vez num dia nublado e ainda antes de passar a ombreira da porta já me tinha batido de algum modo que estava a começar a escrever-se o meu atestado inaptidão social.
Tenho algumas recordações nítidas, que sei que não foram implantadas na minha mente porque delas não há qualquer registo material. Lembro-me de construir comunidades de Lego e Playmobil (com alguns intrusos Pinypon), das iniciativas copiadas dos livros da Anita (fazer um herbário, aprender a cozinhar crepes…), de comer melancia e ver os Jogos sem Fronteiras numa televisão a preto e branco nas férias do Verão na Malhadancha, de desejar ardentemente uns sapatos de verniz pretos, dos livros lindos que a minha mãe me dava… Já adorava livros, por prendas mais aborrecidas que fossem comparando a um bom stock renovado de brinquedos (mas ainda assim melhor que roupa!). Tive um da Bela Adormecida da Disney e achava a Aurora a rapariga mais linda mundo, enquanto eu seria com certeza a mais feia. São todos registos dum estranho isolamento sem clausura.
Uma coisa a minha infância teve de bom: eu não tinha medo das consequências. Espíritos, trovões, ladrões – nada mais terrível! Mas jamais temia coisas prováveis como cair da árvore que estava a trepar ou ficar doente de tanto comer bolos feitos de terra e água. Por exemplo, quando ia ao Guincho, enfrentava sozinha aquelas ondas enormes como se nada fosse. Munida do fato-de-banho berrante que a minha mãe me vestia para não me perder de vista, escapulia-me pela rebentação adentro e ficava lá longe, fora de pé onde a água está mais calma e é mais perigosa, até me cansar de rodopiar, nadar e mergulhar. Tenho saudades daquela sensação de estar isolada do mundo pelas ondas. Aquele muro de água intermitente e o rugido da cadência a reverberar na barriga entre mim e a o rebuliço da praia. E aquela uniformidade fria e vasta que me envolvia.
Quando estava a acabar a quarta classe, a minha mãe deu-me a minha primeira máquina fotográfica, uma Fuji de plástico mal vedada que me queimava os rolos todos e com uma lente menos luminosa que uma garrafa de vinho. Não valia a pena melhor porque eu iria perdê-la de certeza (ainda a tenho). Comecei a tirar fotografias documentando compulsivamente cada visita de estudo, festa familiar ou minudência doméstica até merecer uma Pentax espectacular quando passei para o secundário. Parece que nunca mais me passou a mania… e gosto de ver e rever os albuns, precisamente pela sugestão deles: como não guardo fotos de coisas más, elas só corroboram as memórias das boas. Acarinho especialmente as fotos dos animais de estimação que tive a honra de acolher lá em casa. Por pior que tenha sido deixá-los ir, passado algum tempo só restam as peripécias do Zazu versus o Mundo e de como ele se aninhava na minha cama de manhã, do inteligente e fiel Sócrates que dormia enrolado à porta da cozinha toda a noite e me deixava aquecer as mãos no seu pêlo de manhã antes de ir para a escola.
Isto é tudo muito pouco excepcional, o que se adequa a uma pessoa banalíssima. São miudezas, fiozinhos que se vão entrelaçando como os dedos dos namorados, com uma lógica qualquer que tece e adensa a malha que nos abriga pela vida fora. E são tão preciosas que até já tenho memória de quão feliz serei agora que já o sou.

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