conversa de chacha

Tenho uma memória bestial para coisas que não interessam. Sei muitas coisas parvas que nem sei que sei, mas que me vêm infalivelmente à cabeça quando algo despoleta a recordação, o que proporciona aos meus amigos e família aquilo a que eles chamam os momentos Wikipedia. Além disso, sou praticamente imbatível a jogar Trivial Pursuit. Só que estou constantemente a pedir segundas-vias de pins. Sobrevivo de 3 agendas e um exército de post-its e listas. Nunca soube cantar a tabuada, nem recitar vias metabólicas e nem o meu número de telemóvel.

Ora bem, isto é francamente irritante. Primeiro porque me dá fama dupla: de geek e de despistada. Segundo, porque preferia estar a ocupar o intelecto com coisas úteis como, por exemplo, conhecimentos científicos e técnicos fundamentais ao meu trabalho ou a distinção esquerda/direita ou onde é que este post-it aqui me está a dizer que eu terei de estar amanhã às 10h.

Por outro lado, este armazém de factos de chacha é uma boa base para conversa de chacha, que é um requisito fundamental para uma pessoa se desenvencilhar em sociedade. Tenho conversa de chacha para toda a gente em todos os domínios: novelas, livros, futebol, economia, aplicações para telemóvel… O problema é que facilmente ponho o pé em ramo verde nos domínios que me são menos familiares. Felizmente, muita conversa de chacha decorre em grupos onde diluir a nossa discrição e há muita gente que gosta de se ouvir falar. Foi para essas pessoas que aprendi a acenar com uma expressão cúmplice e ao mesmo tempo admirada enquanto murmuro “hum hum”. Assim se aguenta um monólogo de 15 minutos sem passar por burra.

Até me podia safar com os livros, mas é difícil. Muitos dos que lêem querem é exibir-se e  andam para aí em transe pseudo-intelectual como se estivessem bêbedos com o suco divino da ideia escrita. Ainda por cima acham que as suas opiniões têm selo de qualidade porque eles usam a palavra “tertúlia”, tocam no Hot Club, só fumam Winston e/ou gostam da interface entre a neurologia e a metafísica. Alguns até acham que Lomografia é alguma coisa!

Eh! Haja pachorra para essa gente! Nem com “hum hum”‘s lá vou.

A Sra. Ferreira Alves há-de sentir-se contrariada (é fácil contrariar pessoas ressentidas com tudo e todos), mas para mim é um facto feliz que a maioria das pessoas que falam de livros são aquelas que foram só comprar uns do top 5 da Fnac para levar de férias para o Algarve, que é quando têm tempo para ler. Gosto deles pela sua humildade literária e também porque, pela lei da oferta e da procura, promovem indirectamente a insatisfação das pessoas que se validam por só fumar Winston. Infelizmente não posso dar uma mãozinha. É que a TAP só me deixa trazem 20 kg na mala e só os do José Rodrigues dos Santos são 5 kg cada um. Mais vale 5 kg em Nestum, chouriço e café Nicola. Além disso, graças ao Twilight aprendi que ler “o livro que toda a gente anda a ler” é uma grande esparrela. Mesmo assim – tronca! – comprei o Fifty Shades of Grey e cinquenta páginas depois estou a pensar que aqueles 15€ teriam sido melhor empregues numa travessa de ameijoas à Bolhão Pato.

Quiçá o meu problema não seja tanto a falta de interlocutor, mas de coisas para dizer sobre os livros. As minhas avaliações literárias cingem-se a contar o enredo em 2 frases e depois classificá-los em “gostei”, “gostei mas o homem é muito complicado” ou “alta seca, mal passei das 30 páginas”. Também há aqueles livros em que a gente diz “aprendi muito sobre a vida/Deus/os anjos/a nossa força interior (riscar o que não interessa)”, mas pessoalmente não gosto do género.

Há ainda uma quinta classificação: “chorei baba e ranho”. Raramente vem à baila e eu sinto-me lamechas se puxar o assunto. As pessoas olham para mim de lado quando eu digo que choro baba e ranho a ler Torga. Mas eu fico na minha. Não sei como é que não se chora naquela cena do burro e dos lobos n’Os Bichos.

2 thoughts on “conversa de chacha

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