são órbitas

São órbitas, são.
Parecem caminhos comuns,
Mãos dadas e adiante, mas não.
Órbitas que se cruzam
Ao fim do dia, depois de conceder
Às outras coisas da vida.
Por vezes come-se e fala-se,
Por vezes beija-se e cala-se.
Nada de se enaltecer.

Suspiro, raiva, guarida
Cócegas, abraço mudo,
São instrumentos de diplomacia.
É assim que o trajecto permanece
E que após outro circuito de tudo
O amor se acha de novo
À porta, à mesa, na cama,
No olhar que reconhece
O corpo que se aproxima
Como o tal que se ama.

netos da madrugada

Os poemas modernos
Já não rimam
Nem usufruem daquela métrica hipnótica
Que nos faz cantá-los como a tabuada
Ou qualquer coisa que faça ressonância
Com o que queremos ver neles.
É mais um sinal de que desistimos
Enquanto sociedade de nos proporcionarmos
Com uma harmonia equacionada.

Deus perdeu-nos
Deixámos de pensar
Não temos valores.
É mais fácil brandir
Do que compreender.

Bebamos demais
E compensemos com ócio
E sexo fluído
E um encolher de ombros
Até termos despejado
As nossas cabeças cheias dos sonhos
Que os nossos pais mal se atreveram a ter.

Tanto sacrifício
E até os poetas têm preguiça!